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20/11/2017

Baixa rentabilidade para o granjeiro

Por Por Sergio De Zen

Desde 2004, o Brasil tem figurado como o maior exportador mundial de carne de frango, sendo essa consolidação associada, dentre outros fatores, à maior produção doméstica. Os indicadores de produtividade do setor sinalizam enorme evolução dos padrões zootécnicos, qualidade e segurança dos produtos, o que se reflete na confiabilidade internacional da carne de frango brasileira.

De 2004 a 2016, a produção nacional teve incremento de 52%, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Nesse mesmo período, as exportações de carne de frango aumentaram 61%, conforme dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Em 2016, especificamente, o Brasil exportou 3,89 milhões de toneladas de carne de frango in natura, representando 43,51% do total de compras internacionais da proteína. 

A participação do Brasil no mercado mundial de carne de frango pode, ainda, ser ampliada, devido à geração de excedentes exportáveis nos próximos anos. Estudo do Cepea indica que, de 2017 a 2022, o volume de carne disponível para embarques deve crescer quase 36%. Nesse mesmo período, estima-se que a produção nacional aumentará 18% e o consumo interno, 8%, de acordo com projeções de crescimento populacional do IBGE, PIB calculado pelo Cepea e Banco Central, e produção, estimada pela ABPA nos últimos 10 anos.

No campo, levantamentos do Cepea em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) mostram que o desempenho das granjas vem melhorando. Produtores entregam lotes de animais cada vez mais padronizados, com maior peso de abate e ciclo mais curto, reflexo do aumento da conversão alimentar e ganho de peso das aves.

Apesar desse cenário externo otimista, a rentabilidade do avicultor ainda está aquém do mínimo necessário para garantir a saúde da atividade no longo prazo. Dentre as propriedades típicas analisadas pelo Cepea/CNA desde 2014, 80% das granjas integradas – em que agroindústrias fornecem a ração, pintinhos, medicamentos e assistência técnica – obtêm receita suficiente para cobrir os custos operacionais da produção (manutenções, mão de obra, energia elétrica, cama de frango, entre outros), mas somente 13% delas cobrem depreciações e pró-labore, e apenas 7% conseguem remunerar o custo de oportunidade do investimento e do uso da terra. 

Isso mostra que, sob uma perspectiva global da avicultura, o setor tem enorme potencial de crescimento, mas, analisando os gargalos produtivos, ainda existem desafios importantes a serem vencidos. A estratégia do setor, portanto, poderia residir justamente na adequação de granjas às novas tecnologias de ambiência, bem-estar animal e adensamento populacional na distribuição dos lotes de animais, permitindo o ganho seguro de escala produtiva para suprir as demandas pela proteína nos próximos anos e consumar a excelência produtiva que o setor é capaz de gerar.

*Por Sergio De Zen, professor Dr. da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), e pesquisador responsável pela área de pecuária do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea)

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